VOTO BELICOSO NO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES.

 

VOTO BELICOSO NO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES.

Assistimos neste momento ao resultado desastroso que a desmobilização da Classe Trabalhadora e de Movimentos Populares é capaz de produzir, isso no Brasil e na Bahia. Eu era estudante secundarista em Salvador/BA, na década de 90, líder estudantil no Colégio Estadual Severino Vieira, e as mesmas pessoas do agora que dizem representar a "Esquerda" já estavam lá em meu passado. E no decorrer do tempo até os dias atuais o quê  elas fizeram?  Coptaram lideranças, consolidaram a linha do 'Centralismo Político e Absoluto', defenderam o ‘uni pensamento’, censuraram quem ousa a questionar as práticas que as transformaram em uma  “Esquerdinha Liberal”, que persegue de forma implacável as manifestações de criticidade que surgem dentro, no seio, na alma da categoria, prática da qual sou alvo a todo instante de parte daqueles e daquelas que dizem defender a “Democracia”, contudo, contrariando os próprios valores deste regime político por meio de perseguições que contribuem para o afastamento e distanciamento da Base e a retirada da credibilidade deste eterno pessoal. 


Vivenciamos hoje a fixação da política de composição e colaboracionismo entre representantes operários sindicais (e seus parlamentares) junto a classe dominante no Brasil, tudo isso a partir da ascensão de uma Esquerda de tendência liberal, que não conseguiu dar respostas as reivindicações da massa em relação à deterioração do Sistema, o quê resultou no preenchimento deste vácuo por um oportunista reacionário militar, saudosista dos “anos de chumbo” em termos do que aquele período representou como brutalidade na relação política com opositores.  Todavia , desta vez, 'saudosistas'  utilizam com sucesso mecanismos democráticos políticos-eleitorais para emergir candidaturas, ações, valores e princípios de 1964, situação que assim como naquela época torna-se interessante para os EUA que aconteça aqui, desde que o Brasil não rompa com a metrópole e busque fortalecer a ideia da ‘Pátria Grande’, afinal, não esqueçamos que somos nós a alimentar a metrópole com matéria prima no tecido do Capitalismo Globalizado.


Ao lado desta situação, presenciamos vergonhosamenta a ausência de consciência crítica de maioria expressiva de brasileiros, ora rebaixada ao 'irracionalismo' por um lado e 'infantilismo esquerdista' por outro, militantes das ditas “esquerda” e “direita” desprezam a própria capacidade de reflexão, aderem a discursos superficiais e emoções desmedidas, acreditam em fakes fews, querem eliminar o corpo e a mente de quem manifesta livremente um juízo político contrário as convicções deles. Parte destas pessoas não avalia nem a própria condição material insuficiente imposta pelo sistema nem o grau de exploração em que vive devido ao recrudescimento da crise Capitalista, como também esquecem a inconsistência das políticas governamentais que mantêm há décadas o Brasil na posição subserviente, em um contexto de capitalismo dependente no cenário mundial.


Neste ambiente, chegamos a outubro de 2022, em um quadro eleitoral que precisaremos decidir  além do voto nulo, entre duas candidaturas Lula e Bolsonaro. O Lula, quadro construído pelo movimento de luta  popular no Brasil, tornou-se sujeito que arrefeceu num processo de conversão abraçado pelo algoz. Ele briga pela disputa do poder político, mas economicamente anda ladeado de figuras conhecidas que sempre foram gerentes do Capital Brasileiro, basta olhar para os seus apoiadores (Armínio Fraga, Henrique Meireles, Antônio Delfim Neto, este responsável por uma das assinaturas do AI-5 na Ditatura Militar, dentre outros) .


Do outro lado, temos o  Bolsonaro e seu fiel escudeiro Paulo Guedes. Alguém realmente acredita que estas pessoas promoverão algum movimento sólido de mudança favorável à Classe Trabalhadora? Ou, teremos por aí mais lucratividade para bancos, para complexos comerciais/industriais, para o agronegócio etc, em oposição ao endividamento de famílias, da política do consumismo, e da promoção da fome?


Quem realmente aprofunda leituras, busca a análise e a discussão política contemporâneas tem noção das reformas da previdência realizadas de 2004 para cá, das reformas trabalhistas, da eterna fragilidade de alfabetização (leitura, escrita e cálculo) e letramento populares, da precarização do serviço público, da inacessibilidade de maior parte da população à internet e a aparelhos digitais, do aumento do extermínio da população preta...e tudo mais bem operado pelos “aparelhos ideológicos do estado” (AIE) e pelos “aparelhos de Estado” (AE). Enfim, tudo isso concomitante a instabilidade nacional que vivemos, e aos ciclos históricos de pujança aparente e de crises econômicas, com uma Elite que permanece intocável.


A Democracia nunca chegou para todos e todas, o Estado Brasileiro é Burguês, tem três poderes, mas quem monta o terceiro (Judiciário) é o primeiro (Executivo), por meio de apadrinhamentos. Ademais, o processo eleitoral tem sido uma falácia para que o pobre se sinta “partícipe” da Democracia, pois a estrutura que garante o pleito favorece desproporcionalmente quem tem dinheiro, quem detém o Poder Econômico, vivemos e vivenciamos nessas eleições de 2022 o “cabresto modernizado”, eu, você e qualquer pessoa do povo NUNCA será eleito sem o aceno do Capital, salvo exceções raríssimas que serão eleitas, mas permanecerão isoladas. 


E tudo isso fomentado com a política recorrente de ações populistas e imediatistas que não transformam a vida da nação, são bolhas que não sustentam por muito tempo indicadores econômicos e sociais positivos, tornam trabalhadores e trabalhadoras reféns do “político da vez”, que pode manter, suspender ou destruir eventuais conquistas e avanços.


Ao longo das décadas, políticos se dedicam tão somente a projetos personalistas de governo, que não discutem, não apresentam e não constroem um projeto de estado fundado na ciência, na tecnologia, na educação, no desenvolvimento sólido, e nos anseios da Classe Trabalhadora, são políticos oportunistas em sua maioria cujo objetivo evidente é saquear o Estado Brasileiro para benefício próprio e de grupos, além de matar e de encarcerar pretos e pobres,  seja por negligências em crises sanitárias, seja por edição de leis perversas direcionadas a conter camadas populares aos moldes das antigas normas ‘pré’ e ‘pós’ “abolicionistas”, a exemplo da ainda vigente Lei federal 11.343/2006.


Não há mesmo opção de candidatura para Classe Trabalhadora neste pleito eleitoral de 2022, o contrário é 'Consciência Ingênua', mas uma das seguintes escolhas eleitorais terá que ser feita dia 30 de outubro: não sair de casa para votar, anular o voto na urna ou decidir por quem você deseja combater a partir de 2023 caso sua escolha seja eleita.


Fiz uma escolha serena no patamar federal, não se trata de voto “crítico”, trata-se de 'voto belicoso', pois neste momento temos dois inimigos de Trabalhadores(as), e como em qualquer guerra, precisamos derrubar um para continuar combatendo o outro. Ainda que secreto, publiquei o voto em minhas redes sociais, decepcionei um lado, decepcionei um outro lado e decepcionei até amigos(as), mas fiz porque a minha subjetividade tem coragem (e respeito quem não tem), a minha consciência é crítica, não elimino quem pensa diferente, todavia, combato no campo das ideias e dos fatos. Escolhi votar no traidor da Classe Trabalhadora, e isso não se trata de conversa de “esquerdinha liberal” nem de “irracionalista”, muito pelo contrário, é conversa de professor, pois professores e professoras são categoria do conhecimento e não devemos sucumbir a este deserto de vanguarda, de reflexão, de coerência, de ideologia, afinal somos guardiões e guardiães da Utopia e nosso papel é construí-la criticamente.

E por que escolher o inimigo Lula e não o inimigo Bolsonaro? Lula, apesar de não apresentar um projeto, que ele alega que o fará só depois de eleito, ele se autoproclama sensível a uma história que lá atrás, foi fomentadora de lideranças como ele - é dentro dessa pequena e subjetiva margem, que percebo um flanco, uma linha tênue, que, considerando as minhas condições no momento, avalio como melhor para o enfrentamento em 2023 e para avançar na luta. Diferente do outro, Bolsonaro, que ultrapassa limites da ação institucional na tradicional eliminação de vidas presentes na Classe Trabalhadora.


Bolsonaro elege um padrão humano dentre os humanos, ele despreza o diferente. Ele verbaliza isso, Ele fala, Ele alimenta desejos iguais, Ele captura mentes para a depreciação do que seja diferente do seu ideal humano, ele desconsidera a diversidade identitária presente na população, diversidade também humana e legítima. Logo, Eu, como pessoa, como negro e como homossexual, pleno de quem EU sou e do Direito que OUTRO tem em SER, devo tirá-lo de combate para seguir vivo, forte e atento para combater os demais que pensem igual a Ele ou sejam indiferente a tudo isso.


Já na Bahia, a situação de nosso voto é bem parecida: não sair de casa para votar, anular o voto na urna  ou decidir por votar em quem você deseja combater a partir de 2023.  A especificidade baiana é o fato de configurarmos nas últimas posições do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), abaixo da média nacional, em pleno 2022,  dado que informa o resultado de cinquenta anos de Carlismo e quase vinte anos de Petismo, entretanto, estas são estas opções ora postas para 30 de otubro em 2022.


Diante disso, qual o 'voto belicoso' na Bahia? Se fosse em uma guerra, o ideal seria derrubar os dois candidatos inimigos da Classe Trabalhadora baiana com um só disparo de canhão, todavia, trata-se de uma eleição cuja arma é o voto e que deverá ser exercido de forma livre, direta e secreta, aos moldes que a consciência e capacidade de reflexão de cada uma e uma determinarem.

PROFESSOR MARCO AURÉLIO
Instagram: @marcoaurelioprofessor


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